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Começando pelo “c”, de cooperativa e coração.

Updated: Jun 2, 2019

Muito antes do Teiares dar os seus primeiros passos, eu, Hanna, já vinha construindo minha caminhada na área de resíduos sólidos. O meu marco zero, enquanto profissional, foi há mais de 5 anos, quando tive minhas primeiras vivências com algumas cooperativas de catadores do Rio de Janeiro.

Não há dúvidas de que o Teiares carrega essa herança em seus genes.


Entre os anos de 2012 e 2013, eu fazia parte de uma equipe de analistas que era responsável por oferecer apoio a cooperativas de catadores no Rio de Janeiro, e tive a oportunidade de ver e experimentar o que um escritório jamais me proporcionaria. Pude sentir na prática talvez 1% da realidade e da rotina de uma cooperativa, que não é simples, nem fácil. Encaradas muito mais com um olhar de assistencialismo do que de negócio em si, as cooperativas se debatem até hoje pelaa busca de um reconhecimento e valorização pelo serviço que prestam. O assunto é mais complexo do que parece e envolve questões que vão desde gestão operacional e administrativa até a reflexão de como surgem as primeiras cooperativas e quem as constitui. Poderíamos passar horas falando sobre o assunto (comentários externos são super bem-vindos =)), afinal não faltam estudos e artigos sobre o tema, assim como não faltam representantes de cooperativas de catadores dispostos a expor suas rotinas e dificuldades, e reivindicar seus direitos enquanto categoria.


Mas, como objetivo desse post é ser o primeiro de muitos, a ideia é que ele trate do nosso principal valor relacionado as cooperativas de catadores. Outras discussões, percepções e considerações construiremos juntos com o tempo.


Hoje, eu ouso afirmar que nenhuma cooperativa consegue se sustentar e ser sustentável sem a devida remuneração pelo serviço prestado!

A maioria dos resíduos comercializados pelas cooperativas é vendido a intermediários (atravessadores, na nossa linguagem) e, portanto, o valor obtido com a venda desses materiais é baixo. Infelizmente, a maior parte do valor de venda dos materiais não fica com as cooperativas. Além disso, como o processo de separação, enfardamento e processamento dos resíduos nas cooperativas é manual e, muitas vezes, minucioso, temos um alto custo com mão-de-obra. Por si só, esses dois aspectos já pendem a balança para o lado negativo.

Não bastasse isso, as cooperativas precisam arcar com outros custos para se manter em pé: precisam, obrigatoriamente, ter um contador, e é aconselhável que tenham um advogado. As despesas com energia, água, aluguel de espaço, caminhão e mão-de-obra terceirizada também não são baixas. O INSS dos cooperados deve ser pago mensalmente e por lei, todos os cooperados tem direito a descanso anual remunerado. Cooperativas de catadores tem inexigibilidade de licença ambiental, entretanto, se pretendem atuar dentro dos padrões ambientais, precisam estar em conformidade com as exigências dos bombeiros e apresentar um laudo técnico, o que exige investimento. Ou seja, as contas são altas quando falamos de legalização a nível fiscal, operacional e ambiental, mas a receita da venda dos resíduos está longe de ser suficiente para pagar todas as contas.

Se considerarmos ainda a necessidade de profissionais capacitados para gerenciar o negócio e atuar na captação de clientes e projetos, a conta dá um salto!


Para além da questão prática, e caminhando para uma questão mais ideológica: porque não remunerar quem presta um serviço ambiental, mas aceitar pagar a taxa do Aterro Sanitário? Independente de como ou por quem é feita a sua coleta, todos os resíduos sólidos (com exceção do que já é reciclado ou compostado) do Rio de Janeiro são destinados ao Aterro Sanitário de Seropédica, e esse serviço é PAGO! Pagamos para enterrar nosso resíduo (e manter nossos aterros “bem”, com os controles devidos), mas não estamos dispostos a pagar para que o nosso resíduo seja segregado, processado, enfardado e encaminhado à cadeia recicladora, o que causa um impacto positivo no meio ambiente e na sociedade.


Essa mentalidade precisa mudar! Precisamos quebrar o paradigma de que o resíduo por si só tem valor suficiente para manter a operação rodando bem, com toda a documentação necessária, gerando renda digna para os catadores e os benefícios merecidos. Precisamos começar a valorizar e remunerar devidamente esses atores que lutam por reconhecimento e são um elo fundamental na cadeia de reciclagem em nosso país.


Essa é uma luta deles. E do Teiares também!


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